sexta-feira, 12 de junho de 2020

Capitão do Coração


Creio que falar os efeitos das músicas sobre o humor e a imaginação das pessoas é chover no molhado mas me acompanhe por um minuto. 

Para mim, algumas músicas têm um poder de ambientação tão forte que elas meio que me levam para uma realidade paralela. 

Algumas vezes é só um sentimento, meio vago, aquela coisa de sentir saudades de um tempo que você não viveu. 

Outras vezes é um negócio tão claro que eu consigo visualizar a cena, sentir os cheiros, sentir a temperatura, e sentir o que a minha versão nessa realidade paralela está vivendo. 

A música The Captain of Her Heart (Double) é uma do segundo tipo. 


Nostálgica, fria, lenta. A letra não é muito importante aqui, mas a ambientação. 

É uma balada bem anos 80, época em que ela foi lançada. 

Mas ela me leva a algum tempo depois. O início dos 90. 

Para quem não sabe, eu meio que nasci nos anos 90, então eu era uma criança. Mas nessa realidade paralela eu já tenho vinte e poucos. 

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São Caetano do Sul. Uma noite qualquer de inverno em 1992. 

É noite. Deve ser um tanto tarde, talvez umas 23h00 mais ou menos. 

Faz um frio tão desgraçado que as pessoas estão preferindo ficar em casa. 

Nem a Avenida Goiás, que comporta grande parte da vida noturna da cidade, parece ter escapado desse efeito. 

Está tudo deserto. 

Andamos pelo centro da cidade, meu primo Max e eu. 
  
Encolhidos em nossas jaquetas de couro, passamos pelos pequenos desertos gelados que se tornaram as ruas dessa cidade. 

As lojas já estão fechadas, mas os letreiros iluminados pelo gás neon continuam ligados. Isso confere uma familiar iluminação rosa e azul a alguns pontos da avenida. 

Mas, na sua maioria, a iluminação é simples e soturna, com as lâmpadas amarelas dos postes iluminando estritamente o suficiente. 

Não conversamos. Apenas curtimos a companhia um do outro.

E andamos. 

Nós resolvemos visitar o shopping. 

Ele já deveria estar fechado, mas como tem uma sessão de cinema acontecendo, acabou ficando aberto além do horário costumeiro. 

Caminhamos pelo shopping. As lojas estão fechadas, o que não é uma grande surpresa. No primeiro andar não tem nada de muito interessante. 

No segundo andar, o fliperama. Deve ter fechado há pouco tempo, já que o cheiro de cigarro ainda paira sobre o ar. 
A visão das máquinas desligadas e o silêncio dão uma visão de contraste. O lugar costuma ser sempre colorido e barulhento. 

O terceiro andar. Aqui só tem o cinema. O cheiro de cigarro fica mais ameno. Aqui o que predomina é o de pipoca. 

Resolvemos subir no terraço do shopping. Pelas escadas de emergência. 



Alguns avisos dizem que é proibido. Mas não tem nenhum guarda, nenhuma câmera. Não vai acontecer nada. 

Chegamos ao terraço. 

Não tem nada demais aqui. Um extenso chão de cimento, paredes altas. Aqui em cima parece que é mais frio do que lá embaixo. 

Meu primo me oferece um cigarro. 

Nós não trocamos muitas palavras. 
Não fazemos nada demais. 
Nós nos conhecemos. 
Caminhamos. Curtimos. 
Cometemos um ato inocente de rebeldia. 

Essa é a nossa diversão. 

Não precisamos de muito.

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Fórmula do Sanduíche



Um sanduíche é, por definição, um alimento composto por duas fatias de pão e alguma coisa entre elas, normalmente consumidos como lanche ou refeição rápida.

Tendo isso em mente e por algum motivo o meu recente gosto de separar coisas em categorias, eu acabei criando um sistema de classificação dos elementos do sanduíche, que eu apresento para vocês abaixo.

Os elementos mínimos para que exista o sanduíche são Pão (logicamente, se não não é um sanduíche) e Propósito (pergunte-se: é um sanduíche de quê? Qual é a estrela aqui? E você descobrirá o Propósito).

Tendo essa visão dos elementos mínimos, qualquer "pão com alguma coisa" pode ser um sanduíche (a menos que não seja: canapé não é um sanduíche, por exemplo). Pão com manteiga pode ser um sanduíche se você quiser enxergá-lo assim (e eu não quero ser prepotente mas se você não enxergar você está ERRADO). 
                     

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Pão
O pão é o que vai dar base ao seu sanduíche, mas não somente "base" no sentido material da coisa. O pão é o que vai transformar o Propósito (veja adiante) em um sanduíche. Sem o pão o seu Propósito deixa de ser um Propósito e passa a ser apenas o que é. Parece que eu estou dando importância excessiva aos elementos do sanduíche? Ou é VOCÊ que não dá a devida importância? Pense bem.
Pão pode vir em diversas formas: pão de forma (você se embananou lendo isso agora né? eu também), pão francês, pão italiano, pão de hambúrguer, pão de hot dog, tudo quando é tipo de pão. Eu classifico como "pão" algumas coisas que talvez não sejam exatamente um pão, como tortilhas e uma espécie de bolo salgado que a minha tia alérgica a glúten come em substituição ao pão.
O importante é que existam (pelo menos) duas fatias de pão, ou que você consiga abri-lo para inserir o Propósito e outros elementos.


Propósito
Propósito, como já mencionado anteriormente, é o recheio principal do sanduíche, a estrela, o que faz o seu sanduíche existir e não ser só um pão cortado.
É um sanduíche de que? Qual é a coisa que você espera que seja a mais marcante quando saboreá-lo? Como você vai chamá-lo?
Exemplos de Propósito são hambúrguer, salsicha, presunto, peito de peru, salame, salsichão, atum, etc.
Mas o Propósito pode ser qualquer coisa que caiba no pão. Os outros elementos do sanduíche, inclusive, podem ser ressignificados como Propósito caso você assim deseje. Quer chamar um PÃO COM MOLHO DE PIMENTA de sanduíche? Você talvez tenha algumas papilas gustativas prejudicadas no processo mas vá em frente!
A única coisa que não pode ser um Propósito é o Pão. Mas há controversas. Estudos sobre a questão estão sendo conduzidos.

Queijo
Quando o queijo não for o Propósito do sanduíche eu acredito que ele deva ser classificado como coadjuvante, entretanto, em uma categoria própria.
Os queijos adicionam textura e suavidade (ou força, dependendo do queijo) ao contexto do sanduíche, melhorando a performance do Propósito.
Mas esteja ciente que alguns queijos podem roubar a cena (alô parmesão e gorgonzola) então use com cuidado. E por "cuidado" eu quero dizer precaução quando ao sabor, porque queijo é muito bom e quanto mais melhor, pode encher de queijo esse sanduba aí
Exemplos de queijo: mussarela, queijo prato, provolone, queijo processado, pode-se considerar variações de requeijão como queijo.

Vegetais
Elemento autoexplicativo, qualquer vegetal, seja hortaliça, fruta, legume, etc. Cru, cozido, assado, em conserva. Você vai saber dizer o que é um vegetal, vai por mim.
Exemplos de vegetais incluem alface, tomate, pepino, rúcula, agrião (quem coloca agrião no sanduíche aff), tomate seco, cebola, picles de qualquer tipo, cenoura, banana, batata (purê ou palha), já deu pra entender né


Molho Tipo 1
Eu resolvi separar o "molho" em duas categorias separadas porque, ao meu ver, existem duas maneiras de se adicionar molho ao sanduíche e isso afeta em como ele é saboreado.
Antes de partir para a definição eu devo explicar que o molho em si não se encaixa automaticamente em uma das categorias. As categorias são referentes a como o molho é aplicado ao sanduíche. Maionese, por exemplo, pode ser Molho Tipo 1 ou Molho Tipo 2, ou até mesmo os dois ao mesmo tempo (!!!)
Molho Tipo 1 é o molho que é aplicado no decorrer do preparo do sanduíche. Normalmente é aplicado passando no pão com uma faca ou espátula, mas essa não é a regra, pode ser espirrado direto do frasco também.
Exemplos de molhos NORMALMENTE utilizados como Tipo 1: Maionese, manteiga, requeijão.

Molho Tipo 2
Molho Tipo 2 é o molho que se aplica no decorrer do consumo do sanduíche.
Sua aplicação normalmente se dá espirrando do frasco, mas pode ser aplicado com uma faca ou espátula sobre a região que se vai morder (não vou me ater as questões higiênicas envolvidas, fica a seu discernimento).
Exemplos de molhos NORMALMENTE utilizados como Tipo 2: ketchup, mostarda, molho barbecue, vinagrete, molho de pimenta.
Questão perguntada frequentemente (pelas vozes na minha cabeça): Se no meio da refeição eu abrir o sanduíche e aplicar um molho, esse molho é tipo 1 ou 2?
R.: Isso fica a seu critério, para mim é Tipo 2 porque foi introduzido durante o consumo, mas você pode considerar que houve um intervalo e um novo preparo entrou em vigor, nesse caso seria Tipo 1.

Condimentos
Alguns condimentos não necessariamente se classificam como molho e é aqui que eles entram.
Condimentos são utilizados de forma a aprimorar o sabor de determinados elementos do sanduíche, como os vegetais, mas podem se aplicar ao Propósito ou a qualquer outro elemento.
Exemplos de condimentos são: sal, pimenta do reino, orégano, azeites/óleos.

Complementos
Qualquer coisa que não se encaixe em nenhuma das outras categorias mas tem presença no sanduíche.
Sabe aquele sandubão da hora em que você largou um montão de coisa e comeu até ficar estufado? Provavelmente tem uma porção de "Complementos".
Exemplos de Complementos são, obviamente no caso de eles não serem o Propósito em primeiro lugar: bacon, ovos, cogumelos.
Outros exemplos: Se você adicionar presunto em um cheeseburguer, por exemplo, o presunto será um Complemento.
Pode-se considerar alguns tipos de requeijão (como cheddar de bisnaga) como Complementos, mas eu acredito que eles servem mais como queijo ou molho.


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domingo, 3 de maio de 2020

Pesadelo do Leprechaun


Primeiro sonho. 

O cenário do sonho é o apartamento em que eu moro com meus pais e a Marina, minha irmã caçula (a Ana Paula, minha irmã do meio, casou e se mudou há pouco menos de um ano). É desses sonhos que assustam porque se ambientam em lugares excessivamente reais; e porque o que acontece no sonho acaba sendo traduzido na "vida real".
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Eu saio do meu quarto e escuto alguns barulhos estranhos vindo dos vizinhos na rua de trás do prédio. Levanto e vou até a varanda do quarto da Marina para ver o que está acontecendo (uma atividade criminosa? Não sei, mas não seria a primeira vez). Abro a porta de alumínio e vejo uma senhora não muito velha - uma mãe - arrastando uma coisa que parece uma árvore de Natal (com enfeites fixos de alguma maneira) e é isso que faz o barulho. A árvore parece ser o brinquedo de um rapaz pré-adolescente e de sua irmãzinha. A senhora entrega a árvore para o rapaz, que a veste como se fosse uma mochila. 
 
Peço para tomar cuidado com o barulho, tem gente tentando dormir. 
 
Quase que imediatamente, o rapaz aparece dependurado na varanda. Como assim? Ele escalou três andares? Não consegue entrar em casa pois a varanda tem uma rede (ou tela) de segurança. Mas o barulho dele subindo acordou o meu pai, que apareceu do outro lado da varanda. 
 
"Vai embora daqui moleque, vai acordar todo mundo", meu pai disse. 
 
O moleque fez uma cara de traquinas e como se fosse um desses mágicos de rua atravessou a tela da varanda, efetivamente tendo invadido a nossa casa. 
 
Nossa casa foi invadida. No terceiro andar. Por um moleque mindfreak travesso. 
 
Nisso meu pai e eu ficamos alterados e mandamos o moleque ir embora antes que usássemos a violência. Ele sorriu outra vez e, dessa vez passando por um pequeno vão na varanda, de modo ligeiro e esguio e mesmo com a árvore nas costas, me avisou: "Depois eu venho pregar uma peça." 
  
Foi embora. 
 
Comecei a fechar as portas da varanda quando notei que os meus braços estavam todos arranhados, sangrando - e haviam penas de pombo neles. Fui correndo pro banheiro pensando "preciso limpar isso antes que vire uma infecção". Mas ao chegar no banheiro, me assustei: havia cocô de pombo pra todo lado. Até no teto. E o chuveiro, destruído. 
 
Chamei por meu pai, ele saberia o que fazer. Meu pai veio, mas ele não conseguia me ouvir. Minha garganta começou a fechar e o meu papo a inflar; eu tentei gritar "ele colocou um feitiço em mim", mas meu pai não ouvia. Tentei gritar mais alto, ele colocou um feitiço em mim. A minha irmã escutou e veio tentar ajudar. Será que meu pai estava em choque? Ou o moleque deixou ele surdo? "Ele colocou um feitiço em mim!!" Eu sentia minha garganta fechando cada vez mais. Estaria eu me transformando em um pombo? ELE COLOCOU UM FEITIÇO EM MIM. 
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Acordei. 

A minha garganta estava doendo igual ao sonho, e eu estava morrendo de sede. 
Tomei alguns goles de água e anotei os pontos principais do sonho. Consegui voltar a dormir depois de algumas horas. 

 

Rankle, Master of Pranks - Arte por Dmitry Burmak


Segundo sonho. 

Como se fosse uma continuação do primeiro, exatamente no mesmo cenário. 
Eu não virei um pombo nem morri de infecção, talvez alguma coisa tenha me salvado. 
 
Tento entrar no meu quarto, eis que a porta fecha e tranca por dentro. 
 
Mas o que diabos... 
 
O moleque agora assumiu a forma de um leprechaun, mais ou menos como na ilustração. Ele voou por fora da janela do meu quarto e apareceu na janela do banheiro.
 
E gritou.

Um grito estridente com som de "AAAAA" que mais parecia uma arranhada no quadro-negro. 

Ah, mas dessa vez eu te pego. 
 
Gritei de volta. 
 
Ele se assustou! Acho que não esperava que eu reagisse! 
 
Gritou novamente. 
 
Retruquei. 
 
Ele começou a se deformar, a perder a cor, a recuar. Acho que se eu continuar com isso ele vai embora e não me perturba mais. 
 
Gritou mais uma vez. 
 
Só que agora eu não consigo mais. 
 
Infelizmente eu sou só um ser humano e minhas cordas vocais tem limite. 
 
Mas um leprechaun não tem esse problema. 
 
Ele venceu novamente. 
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Mais uma vez acordei com dor na garganta e muita sede. 
 
Minha irmã disse que eu nunca ronquei tão alto. 
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Na via das dúvidas eu escondi a chave do meu quarto. 
 

 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Coletânea de sub-pensamentos nº 44

  1. Eu tenho que ser muito melhor do que eu sou se eu quiser ser quem eu quero ser 
  2. Droga de Sol, tá em todo lugar esse merda 
  3. (Digitando a senha pra entrar no site do banco): "Eita, eu tô falando com o banco por telepatia" 
  4. Cozinhar é tipo uma alquimia e eu sou um bárbaro 
  5. Tomara que ninguém mude a foto desse grupo, eu gosto muito dela (Só tem eu no grupo) 
  6. Eu super preciso fazer o meu cabelo sangrar 
  7. Eu me sinto nu quando estou sem roupas 
  8. Preciso ganhar tempo pra ir dormir mais cedo, acho que vou escovar os dentes antes de jantar 
  9. Caramba, a Terra girou, e eu tava em cima dela o tempo todo 
  10. Essa torneira tá muito fraca. Falta ódio 
  11. O sujo falando do acebolado 
  12. Inseto nem é gente 
  13. É porque meu caráter foi moldado sobre vergonha e medo 
  14. Este ventilador está obstruindo a justiça 
  15. Eu acho engraçado que... na verdade, tudo é engraçado, né? 
  16. Água Mineral Artesanal 
  17. Esse assunto nunca me interessou o suficiente para que eu me interessasse 
  18. Impostor de renda 
  19. Vou virar vampiro para ganhar adicional noturno 
  20. Thirteen Tears (Da série: sub-pensamentos que poderiam ser nomes de banda) 
  21. Referências vão bem com molho barbecue 
  22. Você não pode simplesmente chegar querendo alterar o espaço-tempo 
  23. "Isso custa cinco barragens" "E quanto vale uma barragem?" "Um real" 
  24. Cadê aquele sol que tava ontem a noite? 
  25. O segredo pra não errar é fazer certo na primeira 
  26. O mundo espera que você seja um NPC 
  27. Sou de Lufa-Lufa com ascendente em Sonserina 
  28. Eu faço isso sempre. Exceto às vezes 
  29. Bem que podia ter horário de verão... E acabar logo em seguida aí eu teria mais uma hora pra dormir 
  30. Se eu soubesse que era uma competição teria me esforçado mais 
  31. Tá tão bosta que se piorar, melhora 
  32. Você teria um clipe e um pão com ovo? 
  33. Zicou a mana (jogando paciência só vinham as cartas do naipe errado) 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Sonho do Quarto-Cozinha


Sonhei que eu tinha comprado uma casinha de quarto-cozinha numa pequena vila. 
  
Era pequena e humilde, mas por ser minha tinha um sentimento especial. 

Não havia garagem nem jardim, a porta para a rua dava na vila. Ao entrar na casa, você estava na cozinha, provavelmente o maior cômodo da casa, com uma mesa, uma pia, um fogão e uma geladeira. 

Do lado direito da cozinha havia o banheiro, que era muito parecido com o banheiro do escritório, porém um pouco mais comprido pois também serviria de lavanderia. 

Por algum motivo eu não tinha enxergado o quarto ainda nesse ponto do sonho e estava imaginando onde iria dormir. A minha primeira ideia - completamente sensata no plano onírico - era de montar uma cama tipo beliche por cima do fogão. 

Além disso eu tinha poderes paranormais pique Jean Grey, que seriam muito úteis dali em diante. 

A minha porta não trancava muito bem, ou talvez eu não tivesse o hábito de fechá-la, o fato é que toda hora aparecia uma pessoa ou grupo de pessoas invadindo a minha casa. Toda hora. 

Algumas pessoas eu conhecia, outras não. 

O primeiro grupo de pessoas que apareceu era composto por senhoras de idade, religiosas - de diferentes religiões, mas aparentemente isso não importava entre o grupo delas - e entraram querendo benzer a casa, fazer orações, estabelecer a harmonia das cores e aplicar o feng shui e coisas do tipo. 
Empurrei elas para fora, porque elas aparentemente não aceitaram a minha recusa como resposta.

O segundo grupo era uma gangue. Eles queriam tomar a casa de mim e não pareciam estar medindo esforços para isso: vieram armados com facas e porretes e em número, foi nesse momento que os poderes vieram bem a calhar: eu conseguia não só conter os brigões como eu podia apagá-los sufocando-os e até cortar a carne deles com uma espécie de lâmina imaginária. Todos derrubados, coloquei eles para fora. Me deixem em paz. 

O terceiro não foi um grupo, mas sim uma pessoa só: Esse parecia ter poderes também, era de certa forma mais furtivo, como se fosse meio fantasma. Esse provavelmente sabia que não conseguiria me vencer na força bruta então ele trouxe produtos químicos que me fariam muito mal. Felizmente os poderes psíquicos podiam ser expandidos e a furtividade dele não serviu muito para além de conseguir entrar na casa; eu consegui também conter os pós que ele tentou derramar pela casa e os coloquei para fora junto com ele. A essa altura eu já estava ficando estressado. 

A quarta vez, finalmente, foi uma surpresa boa: a Lety, minha namorada. Ela tinha vindo conhecer a minha nova casa, e foi até o meu quarto, que ficava atrás da cozinha (só aí eu descobri que a casa tinha quarto), era menor que a cozinha e tinha só uma cama de casal e uma cômoda que eu pensei que poderia ter uma televisão. Ela se deitou na cama e alguém bateu à porta

A quinta pessoa que apareceu era a antiga dona da casa, uma garota jovem e muito tatuada, que era a antiga dona da casa. Ela veio reclamar que queria a casa de volta, pois onde ela estava morando agora era muito longe do trabalho e ela estava gastando muito com transporte e me mostrou as contas delas no celular e falou e falou e falou. 

Eu acordei por aqui mas imagino que se tivesse mais tempo talvez fosse visitado por mais gente maluca. 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

ReLapso: Bug Semanal


Em determinado momento da minha vida eu estudei no ensino fundamental. Era bem bacana, só brincadeiras e risadas, ao menos eu acho que era assim porque não consigo lembrar de muita coisa.

Em particular eu lembro vagamente de uma situação que por alguns dias colocou a minha visão de como o mundo funciona em cheque, para logo em seguida me ensinar a não acreditar em tudo que as pessoas te dizem, mesmo que essa pessoa seja uma autoridade e/ou uma pessoa que você admira.

Certa feita, na primeira ou segunda série (eu realmente não lembro qual - algo me diz que foi na segunda, mas eu também tenho uma memória da professora da primeira antagonizando a cena) - fomos instruídos a escrever uma redação sobre as nossas férias - uma prática muito comum em escolas do nível fundamental, aparentemente tão comum que a prática se repetiu ao menos uma vez por ano até a quinta série.

A tarefa era para casa e eu ainda não tinha concebido alguns macetes escolares como fazer a atividade antes e poder ficar de boas mais tarde então eu levei a tarefa para fazer na minha humilde residência.

Ao contrário do ReLapso anterior, que se passava na pré-escola, no primário a gente já escrevia com alguma proficiência, tropeçando mais em pontuações, acentos e palavras começadas em H, então eu escrevi um texto satisfatoriamente inteligível, o qual eu solicitei que a minha mamãe desse uma lida antes de eu entregar com orgulho para a professora.

Determinado ponto desse texto continha o seguinte verbete, que é muito comum no vocabulário brasileiro e tem um significado praticamente universal: "Final de semana".

Final de semana esse que, se não me engano, foram o sábado e domingo antecedentes à segunda-feira do primeiro dia de aula, data em que foi passada a tarefa que logo sucedeu a terça-feira em que a redação foi entregue.

A professora, no horário de aula, enquanto a sala fazia desenho livre ou brincava de massinha de modelar ou seja lá que tipo de estripulia nós fazíamos, chamou a minha atenção sobre a minha redação.

- Está muito boa, querido, mas o que quer dizer com 'Final de semana'?"
- Ué prô (eu fiquei um pouco intimidado, pois segundo minha mãe não tinha erro nenhum) é o sábado e depois o domingo.
- Aaah, mas isso não é o final de semana.

Buguei.

Como assim mulher? Como a senhora vem me dizer que um final de semana não é a droga do sábado e o maldito domingo? Tipo, todos os brasileiros, talvez todos os SERES HUMANOS concordam que o final de semana são esses dias!

- O domingo é o primeiro dia da semana. O final da semana é apenas o sábado.

Ah.
Uma explicação embasada, até que faz algum sentido.
O domingo é o primeiro dia, logo não faz parte do "final".
Claro.

- Mas prô a gente em casa sempre falou final de semana
- Final de semana é só o sábado! Domingo é no começo. A gente já começa a semana descansando!

A professora solicitou que eu corrigisse a minha redação (que obviamente estava escrita à lápis) e eu apaguei "final de semana" e espremi naquele mesmo espaço "sábado e domingo" para devolver a tarefa e o texto continuar com o mesmo sentido.

Eu matutei na nossa conversa durante algum tempo - tempo o suficiente para a minha mente registrar como ReLapso - mas dali a alguns dias eu cheguei à conclusão de que a professora era a única pessoa do mundo que não incluía o domingo em seu "final de semana".

Então, talvez ela estivesse errada, no fim das contas.



Sonho da Passagem Secreta

O sonho começa na sala da casa do meu avô (onde hoje mora o tio Mario), a sala parece meio vazia em comparação ao que costuma ser, como se estivéssemos esvaziando-a para pintar as paredes; eu reconheço a presença de alguns parentes próximo, que se ligam a mim de uma maneira ou outra: meu pai, o tio Mario e meus primos Alex e Max. 

Ao retirar o relógio da parede (que no sonho ficava muito alto e se posicionava na horizontal, ao invés de ser na vertical como o real), revelamos uma passagem secreta. 

O tio comentou algo do tipo, "alguém usou ela recentemente? Eu não passo desde criança". 

Todo mundo fez um comentário, como se ela fosse uma velha conhecida de nós cinco.  
Como se ela fosse um segredo da família, mas só nosso. Como se todos tivessem usado ela em algum momento, mas hoje em dia não fosse necessário

Escondida atrás do relógio horizontal, a parede era falsa e abria para um túnel que ia pela lateral da parede, para a esquerda e para a direita. 

O túnel era extremamente estreito, de modo que eu passaria por ele rastejando muito apertado, talvez quando mais novo fosse mais fácil. 

A lembrança da sensação claustrofóbica de ter que usar o túnel me fez até passar mal, e me ocorreu que se eu tentasse usar o túnel eu provavelmente me perderia - não era um túnel reto, haveria caminhos.

Caminhos esses que eu sinto que custei a memorizar, mas devo tê-lo feito com ajuda dos meus primos, pois usávamos a passagem juntos. 


Um dos lugares em que o túnel da esquerda terminava, se feito o caminho certo, era uma espécie de pátio.

Esse pátio me lembrava muito a parte de cima da casa do meu avô (que meu pai chamava "laje"), porém era distante, era secreto. Era só nosso. Era tipo um lugar feliz na minha infância. 


sexta-feira, 21 de abril de 2017

ReLapso: Introdução e o Primeiro Bullying da Minha Vida Escolar


Já tem algum tempo que eu queria apresentar pra vocês um novo tipo de texto que eu irei passar a escrever e aqui estamos nós.

Como vocês devem saber (ou não), o QWoL é primeiramente o meu backup de memórias, por isso eu continuo insistindo nele (apesar de não chegar nem perto da frequência que já teve) e não cogito nunca apagar o blog ou posts por mais que eu tenha mudado de opinião (exceto um ou outro). 

Existe um tipo de lembrança que eu desejo arquivar mas queria separar das outras por serem um tanto especiais: são fragmentos. Pequenos. São lapsos. Alguns deles eu nem tenho certeza se aconteceram de verdade. São pedaços preguiçosos na minha memória. Relapsos. 

Eu volta e meio retomo eles, por isso Re e Lapso, como palavras separadas pela letra maiúscula, mas ainda unidas pela falta de um espaço entre elas. ReLapso. 

A ideia do nome veio em um rápido brainstorm com o Capelo, K-2 e Pato, embora um deles tenha participado menos mas nem sei dizer qual foi. 

Espero que estejam apropriadamente introduzidos, segue logo um dos meus favoritos. 

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Por algum motivo, a minha mãe achou que eu já devia entrar na escolinha sabendo alguma coisa. Eu hoje acho meio estranha essa ideia, porque afinal a escolinha serve pra ensinar as crianças. Não sei se era necessário fazer com que um pivete de mais ou menos quatro anos já soubesse ler e escrever. 

Bom, eu era esse pivete, e apesar de não ser o maior Shakespeare infantil da paróquia, eu sabia, antes de entrar na escolinha, a formar e decifrar as sílabas mais básicas, por exemplo saber que B + A se lê "BA" e você pode usar essa artimanha para escrever BALA por exemplo na lista de compras dos seus pais. 

Entrei na escolinha com o meu conhecimento de letras já ligeiramente maturado pelos tios Mauricio de Sousa e Walt Disney e, como devia ser praxe entre as escolinhas pré-primário do século XX, a turma foi instruída a desenhar. E por algum motivo as crianças gostavam de "escrever" o que estavam desenhando, como que pra poder explicar pros adultos o que era aquele rabisco, mas elas não sabiam escrever tampouco. Eu sabia. 

Uma garotinha chamada Barbara estava desenhando com seus giz de cera uma casinha, dessas que as crianças desenham, retangular com trapézio em cima e arvorezinha do lado e então se perguntou em voz alta como se tivesse tentando recuperar uma memória: "Como é que escreve CASA...?" 

Eu que aparentemente já era um filho da mãe prepotente lhe respondi: "É C-A-S-A. C com A da CA e S com A dá ZA" 
  
Ela respondeu: "Não é isso não, é CASA. Escreve assim... o K... e... o A." 
"É C-A-S-A. Eu sei escrever. Minha mãe me ensinou." 
"Ah é? Pois diz pra sua mãe que ela é uma burra." 

Nada como ser recepcionado na escolinha com ofensas gratuitas à sua mãe. 
E mais: Com a sinceridade de uma criança de quatro anos. 

Dali dois anos a Barbara gostava de mim mas eu tava mais a fim da prima dela, a Débora (não fiquei com nenhuma delas).